domingo, 7 de dezembro de 2008

Para Júlia

Domingão de sol em São paulo. Uma mulher de 30 –e poucos- acorda –sozinha – em seu apartamento. Alimenta seus cães e pensa no que fazer já que não consegue pensar em ninguém para ser uma companhia num café de padoca, um dos seus programas preferidos.

Foi neste contexto que resolvi levar minhas cachorras ao Ibirapuera – a praia dos paulistanos já que eu precisava de material para a minha coluna. (sim, estou vivendo um delírio de Carrie Bradshaw sim, e daí ?)

O Ibirapuera, assim como o resto da cidade, é dividido em guetos: se você quer confraternizar com populares: fique mais para o lado da Pedro Álvares Cabral com a 23 de maio ou perto da Marquise...ali tem capoeira, alguns shows e teatros populares, se curte um skatista: vá ao vão da bienal, para namorar: na beira no meio do parque onde tem árvores e sombras, Cachorros: perto da entrada da Manoel da Nóbrega indo mais para o fundo, tem um cachorródromo e se você pretende paquerar e encontrar um bom partido: a dica quente e ficar mais profundo, lá pelos lados da Vila Nova, perto dos casarões onde sarados de Moema, vila uó-limpia e vila nova vão desfilar seus Asics e Mizunos do último tipo. Segundo uma amiga minha que chamarei aqui de Lia, lá é ponto pra encontrar “partidões”... ela mesmo já pegou uns três ali! Mas muito cuidado...a última famosa que conheceu o namorado no parque foi a Suzane Richofen sei lá como escreve)!

Mas hoje, eu não circulei por nenhum desses points. Achei um canto que combinava melhor com o meu estado de espírito: um canto, na beira do lago, sem ninguém em volta, com a grama alta, umas latas de refrigerante pelo chão e uns sacos de pipoca usados, que mostram toda a civilidade ecológica do cidadão brasileiro. Esse ponto fica bem escondido atrás de um ponto de ônibus na frente da Assembléia...a 2 metros da avenida, do caos urbano, você tem – em pleno Ibira – um local totalmente solitário, quieto - e bem sujo.

Nessas horas meio solitárias e em meio á multidão é que eu mais sinto saudade de você, Julia. Fiquei ali naquele cantinho poluído e isolado do parque pensando que talvez eu ainda não esteja pronta pra ir pro outro lado do lago e interagir com os seres humanos. Tem sido assim há 6 meses e acho que eu não tinha me dado muita conta disso. Claro que não nego a falta, a dor, a saudade que sinto de você e absolutamente ninguém sabe como ainda dói todas as noites quando as duas que ficaram no seu lugar se acalmam. Aqueles 5 minutos antes de dormir ainda são extremamente dolorosos: todos os dias. Mas não tinha me dado conta de que me mantive do lado de cá do lado esse tempo todo.

As pessoas – e dessa vez eu me incluo dentro delas – ainda não aprenderam de dor não se julga e não de mede e talvez eu tenha passado os últimos 6 meses escondendo do mundo essa dor que é tão pouco compartilhada pela maioria dos humanos. Ninguém respeita ou admite esse nível de sofrimento quando se perde um cão. Acho que foi isso, minha pequenininha: escondi do mundo essa dor e me fiz forte enquanto na verdade ainda não estava preparada. É...talvez a vida de uma mulher solteira depois dos 30 não seja tão chata assim, mas só a daquelas que perderam um grande amor canino e que não conseguem lilidar com essa dor..

Acho que já era tempo de falar sobre esse assunto.

PS: Esqueci de falar: Tem uma família de patos que gosta do canto solitário e poluído do Ibira. No auge das minhas divagações eles subermiram, chacoalharam e afundaram de novo. Eram uns 5! E eu que - urbanóide - não fazia a menor idéia de que patos afundavam e nadavam debaixo d´água!

Um comentário:

Anônimo disse...

Mari!! Eu recebi o email e fiquei curiosa sobre o seu "blog", algo que eu tbm resisto muito, mas as vezes me coça a vontade de sair vomitando pro mundo as merdas que eu penso...
Fiquei comovida com este texto... a "nossa" pequena Julia vai sempre deixar saudades! Não esconda! Só os melhores seres humanos têm a capacidade de amar um cão e o direito de sofrer a sua perda como e por quanto tempo quiserem...
Vai fundo no blog! vou acompanhar, hahaha
beijos