terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Despedida de Natal

Às vésperas de Natal, 6 amigas dos tempos de colégio se reúnem, mais uma vez, possívelmente pelo décimo ano seguido, para se despedir do ano em que pouco se viram.

Praticamente um ritual de 90% dos grupos de amigas, todos os anos você repete esse jantar com pelo menos 3 turmas suas. Os papos em geral são os mesmos e giram em torno de up dates da vida de cada uma nos últimos meses.

O local escolhido dessa vez foi o Mestiço. Restaurante descolado onde é possível encontrar o Lobão e descobrir quem é Gloria Kalil, graças as suas amizades ecléticas que sabem quem ela é, o Mestiço tem comida e temática moderninha que um dia já me apeteceu muito...

O encontro começa logo com o esporte preferido de qualquer circulo de amigos de longa data: retornar à infância e brincar de implicar com a mesma vítima de sempre. Só que dessa vez, a vítima de sempre está grávida e irritada, nos lembrando que não somos mais crianças e fazendo a brincadeira ficar sem graça: acho que deve ter algum dispositivo genético nas mulheres que aciona um código secreto de auto preservação que proíbe implicar com as grávidas...

O fato, que me tira do clima adolescente, me faz observar mais atentamente aquele jantar que prometia ser o mesmo de 10 anos atrás. O motivo era o mesmo, a intenção idem, mas os assuntos...

No princípio dos 20, tudo o que 6 amigas tem pra contar são detalhes da intimidade sexual da pobre vítima com quem estão namorando, que incluem informações perversas e hilárias, mas fazem parte de uma tentativa de descobrir um parâmetro de normalidade naquilo que, por mais que façam muito, ainda lhes é novidade. Depois dos 25 e na fase que antecede aos 30, a parte divertida vai dando lugar a conversas totalmente burocráticas e surreais de quanto custa o cento do convite de um casamento, quem casou com quem, quais são os melhores bufês...tem sempre a sua primeira amiga grávida nesta fase que te tira as ilusões românticas sobre o tema diznedo que depois de 3 meses vomitando você vira uma almofada de peidos e peitos ambulante.

Mas depois dos 30...ah...depois dos 30 é impressionante como embora o propósito permaneça o mesmo, os temas de cada uma vão ficando cada vez mais distantes e mais diversificados...Na mesma proporção, graças a deus - ou a capacidade do ser humano em evoluir, cresce a sua abertura para essa diversisdade. Caso contrário, você não teria mais amigas se desejasse ter uma que compartilha dos mesmos problemas que você.

Numa mesa de 6 amigas de infância, todas com mais ou menos a mesma formação, poder aquisitivo e criadas na mesma região da cidade surgem: (i) uma separada, com filho, namorando um garotão bonito e quase perfeito que lhe incomoda porque ronca, porque tem barriga, porque tem um Corsa, dívidas no cartão de crédito e mora com os pais. Ela deseja que ele seja mais homem, mais responsável, mas está longe de terminar com ele porque, segundo ela, ninguém é perfeito e as relações são assim mesmo. (ii) outra separada que agora está grávida de um namorado de poucos meses e que, dada as circunstâncias, acha melhor não reclamar de mais nada. Ela concorda que nada é perfeito e que temos que engolir vários sapos se quisermos se relacionar e segue tentando a vida a dois, agora a três, o que lhe parece ter feito bem porque ela agora gosta e atura cachorros! (iii) uma recém casada, com um cara mais velho e com quem namorou mais de 8 anos. Esta que mora na casa perfeita e tem o marido adulto e provedor como desejaria a primeira, apenas pensa em arrumar um amante para ter noites tórridas desxo e aventura. (iv) a única casada há mais de 3 anos, com filho, bem estabelecida e com aquele currículo social de revista que é o target de qualquer menina de 20, foi, riu, se divertiu, mas silenciou quanto à sua vida. As questões dessa vez devem ser mais complicadas do que aquelas que se divide um jantar desse e não tinha graça nenhuma expô-los. Isso é outra coisa que você aprende depois dos 30: se uma amiga não conta nada durante um jantar desses, não é porque a vida dela tá chata, mas sim está mais complicada do que se é publicável num encontro agradável de natal. (v) uma que está namorando, apaixonadíssima e feliz - com uma mulher. E que talvez, por isso mesmo, todo aquele papo de melhor se acomodar com um par imperfeito não faz o menor sentido. E talvez seja por isso que ninguém lhe faz perguntas que vão além do drama vivido dentro de casa ao se contar para os pais que se está numa relação gay. (vi) uma que só observa...que nunca casou, nunca teve filhos, mas que tem repertório de relacionamentos pra entender um pouco de cada pseudo drama daquela mesa: que já esteve bem numa relação, mas queria mais, que já se conformou a imperfeição e aguentou até mais do que podia para estar ao lado de alguém, que já viveu uma relação feliz mas faltava o amante, que já sentiu tanta dor que fingiu que nada estava acontecendo pra não estragar um jantar e que já esteve perdidamente apaixonada em relações não tão populares.

A número (vi) se cala e escuta. Fala uma ou outra bobagem. Mas em algum lugar dela, tem certeza que as amigas de número (i) a (v) também tem um vasto repertório emocional composto da capacidade de perceber e entender cada um dos 6 pontos de vistas regados de questões balzaquianas que estavam sentadas naquela mesa, que é o que faz com que assuntos tão paradoxos, façam todo o sentido após a sobremesa.

Feliz natal, girls... e Feliz ano novo com as questões da pauta e com a velha amizade que as vezes incomoda porque é de verdade, mas que completa e está acima de todas as questões e só porque se chama amizade, é sim, perfeita.

Nenhum comentário: